Bipolaridade Medicada

Olá, meus queridos!

Fiquei muuuuuiiiiitos anos sem postar nada. Algumas pessoas inclusive mandaram mensagens preocupadas. Eu sei, nossos diagnósticos não sugerem boas coisas quando a gente some assim.

Acontece que estive tão bem durante esses anos e fiz tanta coisa que parei de postar. De alguma maneira eu não me identificava mais com essa personagem que eu criei aqui. Mas agora, com toda essa pandemia e loucura acontecendo em volta de mim, bateu a vontade de retomar tudo isso aqui.

Por quê? Porque acho que devo contribuir com a saúde mental daqueles que sofrem como eu sofri. Para que experimentem essa paz de estar livre dos piores sintomas. Nunca fiquei estável, como dizia um post meu antigo, estável é quem já morreu. Mas garanto que ando muito melhor hoje em dia. E graças aos tratamentos.

Preciso atualizar vocês sobre a jornada desde que parei de escrever até agora. Estou com um projeto “Bipolaridade Medicada”. Quero fazer mais posts e um podcast e um canal no Youtube para que as pessoas saibam que nossa situação tem controle. Não tem cura (será? ainda não. mas acredito que um dia teremos…). Mas tem controle!

É isso.

E vocês, meus queridos? Como estão?

Estável

Permaneço estável. Respeitando minhas vontades. Nunca mais fiz o que não queria. Copa do mundo por exemplo é aqui em casa, tranquila e calma, vendo o jogo por todos os ângulos que eu gosto, no canal que eu quero, acompanhada de uma, duas ou três pessoas no máximo. Pessoas de quem eu gosto de verdade. Sem gritos (a não ser os meus), sem perigos de dirigir depois das loucuras da torcida, sem incômodo! Uma maravilha!!! Tá certo que parece coisa de gente deprimida, mas vamos combinar que deprimente mesmo era o que eu fazia há 4 anos atrás e nas copas anteriores.

Eu ia a todas as programações obrigatórias para que me considerassem normal: Copas do Mundo, Festas Juninas, Natais, Anos Novos… Mas concluí que era esse esforço para ser normal que me piorava. Copa, por exemplo: via os jogos no meio da maior algazarra, às vezes perdia os lances importantes, era obrigada a aturar o Galvão Bueno ou qualquer outra coisa que a democracia do local decidisse por mim, ficava com aquela cara de festa e na realidade eu não estava muito confortável, tampouco feliz!

Agora é diferente: assisto no SporTV que apesar de ser igualmente da Globo, possui comentaristas muito mais agradáveis e a imagem tem a mesma boa qualidade; nenhum bêbado me incomoda; não perco nenhum lance; posso ficar deitada, confortável, ou mesmo de pé pulando, posso dar cambalhota ou permencer impassível porque não tem ninguém aqui enquanto assisto aos jogos para avaliar se eu sou normal.

O mesmo ocorre com as festividades: não vou mais às festas que as pessoas acham que são as melhores. Se eu prefiro uma pequena festa com pouca gente eu vou e deixo de ir a outras mais badaladas, ou ao contrário, posso ir a um imenso baile carnavalesco acompanhada de quem eu quiser. Chega de dar satisfação à família, à sociedade, aos outros!

E assim vou mantendo minha estabilidade, porque também, quando eu deixava de ler um bom livro pra ficar bebendo e saracutiando sem vontade apenas para as pessoas acreditarem que eu sou normal o prejuízo era total: perdia a oportunidade de estar comigo e bem para ficar à mercê dos comentários dos outros sobre meu humor, minha aparência etc, e continuava não sendo normal do mesmo jeito. Agora a diferença é que se eu sou considerada “anormal” pelo menos estou de bem comigo!

É isso, pessoal… Ah, e eu posso também gostar do Maradona e vibrar com o time da Argentina sem medo de apanhar (brincadeirinha…)

EMDR: uma revolução!

Tive a oportunidade de experimentar essa nova modalidade de terapia que promete revolucionar o campo da psicologia – a EMDR. A sigla se refere aos termos em inglês: Eye Movement Desensitization and Reprocessing (a tradução seria algo como Desensibilização e Reprocessamento pelo Movimento dos Olhos). É uma técnica que trabalha estímulos bilaterais (estimula os dois hemisférios cerebrais) e visa eliminar traumas, lembranças negativas em busca de cura para as mais diversas mazelas da mente.

Eu fiz uma sessão e confesso que saí dela mais leve, mais entusiasmada. Vi os efeitos nos meus sonhos, nas minhas reações, nas mudanças de pensamento. Aconteceram episódios com a minha mãe, por exemplo, onde antes eu teria dado mais importância a certas palavras dela, mas não tive o menor impulso de reação. Costumava ser muito reativa à minha família, ficava cheia de raiva etc. Minha mãe que já vinha num caminho de me execrar e me tirar tudo o que pudesse de mim, finalmente deu o golpe final: disse que ia me tirar do plano de saúde para colocar a filha da minha irmã. Se fosse antigamente eu daria um escândalo do tipo: ” ah, já não está satisfeita com todo o mal que me causou e agora ainda quer que eu morra sem assistência médica?!!” Coisas desse tipo. Que nada. Eu simplesmente disse: ok.

Meu irmão também veio tirar satisfações de coisas do passado e eu disse apenas: ah tá… E pronto! Simples assim! Sem esforço, sem precisar ficar me lembrando do que eu prometi fazer ou não fazer da minha vida. Muito libertador! Eu recomendo!!!

Um, dois, três… testando!

Opa, parece que o microfone está funcionando! Então vamos lá!!!

Gente, consegui sair da lama. Desejo que seja por bom tempo! Voltei a querer viver. Isso é uma maravilha! Estou trabalhando com bastante produtividade, reorganizando minhas relações pessoais, reparando danos causados às pessoas (é, vocês acham que a gente é de fino trato? quando surtamos incomodamos muita gente, magoamos, fazemos coisas que não devíamos), a grande diferença é que dessa vez eu fiz as reparações do fundo do coração. Antes eu até fazia, mas era mais para aliviar a consciência.

Como tem sido bom me aliviar do peso que venho carregando há tantas décadas! Já sou uma senhora e andava com um balaio cheio de mágoas da infância, lembranças inúteis e que não me ajudavam em nada, apenas me enchiam de ódio e de depressão (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo e sempre uma ou outra). Vou confessar os meus segredos:

  1. Estou com 2 psicólogos: uma junguiana e outro cognitivo comportamental. Loucura? De jeito nenhum. A primeira teve um papel fundamental para que eu percebesse o tamanho da carga que eu carregava. Me hipnotizou e me fez resolver uma série de coisas em sonhos, além de abrir um ralo dentro de mim, de onde brotaram todos os piores sentimentos humanos (tive crises de fúria, ódio mortal, vontade de matar o povo da minha família, para dar apenas alguns exemplos). O outro psicólogo é ótimo pra me trazer de volta. Então a mulher me levou às profundezas do Hades e o homem foi até o subetrrâneo para me tirar de lá. É bom conhecer os nossos infernos, mas é fundamental ter quem nos lembre que também temos um paraíso para desfrutar aqui e agora.
  2. Estou com uma psiquiatra nova, nova para mim e nova de idade. Jovem. Formei uma crença: os jovens estão mais atualizados em termos de psiquiatria. Os mais antigos por vezes têm vícios e medos, conceitos arraigados e podem até nos fazer muito mal. O último, um senhor bondoso, quase me enlouqueceu de vez brincando de mudar a dose das medicações. Se eu ficava melhor, ele diminuía, se eu ficava pior, ele aumentava. Uma gangorra insuportável que me levou à emergência psiquiátrica onde encontrei a deusa que me cuida atualmente. (acho que andei vendo muito filme esses dias, Fúria de Titãs me inspirou sobremaneira!).
  3. Persisti. Não deixei de fazer tudo o que estava a meu alcance. É trabalhoso, demora, é intermitente – não sei dizer por quanto tempo vou permanecer bem, como já disse, desejo que seja por muito tempo. Mas tenho que manter em mente que há a possibilidade de que eu volte para a lama. E que terei que estar disposta a começar tudo de novo. Vale a pena, insista!
  4. Busquei ajuda espiritual. Não vem ao caso explicitar que tipo de ajuda. Sei que contribuiu.

Enfim… Devemos lutar muito, modificar atitudes e hábitos, ter fé (seja lá como for, mesmo que seja a fé nos avanços da ciência), praticarmos a humildade de reparar danos, cultivar a persistência, e se tivermos dinheiro investir muito em saúde mental, sempre!

E agora, com vocês, a estrela do dia: a gastrite!

Como se não bastassem todos os meus desgostos psicológicos e emocionais, eis que me aparece uma dolorosa gastrite.

Óbvio que algo físico deveria aparecer, mas eu estava bem mais confortável com as minhas herpes de stress. A gastrite dói, me deixa de cama, dá um desespero medonho! Que horror!

Mas, não tenho apenas más notícias. Melhorei bastante. Vai ver ter a dor da gastrite me distrai da dor interna abstrata. E a vontade de não viver passou. Ainda não posso dizer que estou feliz da vida, mas tenho conseguido encontrar sentido em algumas coisas e ver que nem tudo está perdido.

Há luz no fim do buraco do coelho!

Consegui voltar a realizar as atividades cotidianas, colocar em dia algumas coisas atrasadas, sair com algumas pessoas queridas, rir, ver um filme bobo, brincar entusiasmada com minha cachorra. Ela sim, parece saber tudo o que sinto. Uma sintonia afinadíssima! Nesse momento está aqui, tentando aquecer minha barriga dolorida. E haja chá!!!

A depressão é como um cafajeste

Chegou  sem avisar, se instalou em minha cama e utilizou todos os cômodos de minha casa. Dormiu comigo, fez tudo o que teve vontade, suplantou os meus desejos e me deixou completamente envolvida. Me iludiu, fez com que eu acreditasse que ficaria comigo para sempre ou que morreríamos em algum pacto secreto. Mas foi embora, do mesmo modo que veio, sem avisar, sem deixar recado, nem mesmo um telefone de contato!

Ora essa maldita! Ainda bem que diferente de um cafajeste, não me deixou saudade!

E vamos de volta à normalidade!!!! Estou escalando o poço! Louvados sejam meus esforços e as contribuições de força que recebo por aqui!

O sol brilha como a sertralina!

Estou aqui, de manhã cedo, com a mente livre do temporal que me atordoava até ontem. Ironicamente o clima da cidade me acompanha nessa mudança. A tempestade de ontem repleta de nuvens cinza-escuras deu lugar a um céu azul, limpo com um sol brilhante!

Sei que alguns podem ficar preocupados com o andamento do meu tratamento, afinal de contas se eu sou mesmo bipolar o uso de antidepressivos não é o recomendado. Mas afirmo com segurança que não estou nem perto de uma virada maníaca. Não descarto que daqui a alguns dias isso possa de fato ocorrer. Mas como eu já havia passado bons bocados com 150 mg de sertralina no passado, creio que estarei em equilíbrio enquanto a medicação ajudar. Estou ainda em 100 mg. Mas não vim aqui hoje falar de dosagens.

A psiquiatra que me atendeu por último e me salvou de um martírio que me acompanharia no feriado da semana santa disse que se eu continuar respondendo bem ao uso de antidepressivo com ansiolítico (tomo também olcadil), provavelmente meu diagnóstico seria o de depressão mista com transtorno de ansiedade. Agora que o remédio me trouxe os raios de sol nem me importo mais tanto com os rótulos tão enfatizados na postagem anterior.

Penso que talvez o psicanalista que me atendeu na quarta-feira passada e iria me ajudar apenas na segunda-feira (ontem) queria que eu experimentasse a expiação de Cristo no calvário e todas as coisas relacionadas à sexta-feira da paixão, ao sábado de aleluia com poucas chances de ressureição no domingo de páscoa. Ainda bem que uma estrela brilhou e me guiou até a Clínica Ser e eu pude me livrar da cruz que andava carregando!

Nos vemos por aqui então! Abraços de luz!

Lady Borderline