Meu querido, meu velho, meu… ué? cadê você, pai?

Eu bem que gostaria de poder cantar aquela música do Roberto Carlos “Meu querido, meu velho, meu amigo”, com lágrimas nos olhos como faz meu padrasto quando canta com todo seu louvor em homenagem a seu finado pai… Porém, ocorre que meu pai não ficou perto de mim para que pudéssemos ter laços de música de Roberto Carlos.

Não sou assim tão brega, mas falar dos pais me causa uma bagunça emocional sem precedentes e por isso me valho dos recursos de linguagem que me cabem. A pieguisse, de vez em quando, consegue falar mais do que o tom habitual.

No início dos tempos meu pai era meu marido. Meu querido, meu lindo, meu amado. Eu acreditava que ia casar com ele. Era fascinada. Mesmo quando ele começou a ficar ultraviolento, mais ou menos quando eu tinha uns 5 anos, eu continuava amando aquela figura paterna. Ele passou alguns anos espancando a mim e à minha irmã (ela bem mais do que eu). Batia com a mão, dava cascudos, tapas, murros, batia com os pés calçados ou não, chutes e ponta-pés, batia com o cinto, com fivela ou sem, sapatos, chinelos, cabos de vassoura, objetos variados. E batia até cansar. Depois dizia:

“Hoje você vai dormir com o couro quente!”

Essa idéia de montar esse blog tem sido muito boa, curativa. Tenho me lembrado de muitas coisas. A frase acima é um exemplo disso. Eu tinha esquecido de quantas noites dormi com o couro quente. Me lembrei uma semana atrás porque tive um ataque de fúria com a minha cachorra de noite, dei umas palmadas nela porque ela fez uma pirraça daquelas, meu pai “baixou” em mim, como é de costume nos meus ataques de ira, e veio na memória a admonição: “hoje você vai dormir com o couro quente!” falei baixinho para minha pobre cachorrinha. Não pensem que eu passo dos limites com ela. Estamos juntas há 5 meses e só tive 2 episódios desse tipo e ela leva umas palmadinhas que em nada lembram os espancamentos da minha infância.

Só que as surras foram substituídas por uma ausência, um silêncio ensurdecedor, quando finalmente minha mãe após 13 anos de casamento decidiu por fim à relação dos dois. Ele foi embora e pode-se dizer que aquele pai foi embora para sempre. Deixou no lugar um clone, diferente, ou melhor, indiferente… Um homem distante, que queria ser visto como amigo, mas não era meu querido, nem meu velho.

Se para ser borderline é preciso uma infância abusiva e traumática seguida de um abandono paterno, bom trabalho pai! Você conseguiu fazer um serviço quase completo!!!! Hoje em dia tento perdoar, mas o caminho é longo e difícil. Mas tenho andado, um passo de cada vez, com todo o empenho possível.

Mas as dores das surras estão introjetadas e viraram dores da minha alma.