Litemia

Litemia. Exame para ver a dosagem do lítio. Serve para evitar a toxicidade e para ver se a dose está na faixa terapêutica. O certo é estar entre 0,6 e 1,2. Abaixo de 0,6 não é terapêutico. Acima de 1,2 é tóxico. Ou seja… Temos que estar no caminho do meio. Evitar passar os limites. E novamente estou na linha de fronteira.

Minha litemia deu 0,2. É pouco. Aumentamos a dose. Vamos ver…

Próxima litemia semana que vem.

Ando bem. Feliz em poder experimentar essa nova sensação de estabilidade. Algumas desvantagens, principalmente por não ver mais flores em algumas pessoas e situações. Mas fazer o quê? Melhor cuidar bem de mim…

Abusos na infância

Eu havia prometido falar sobre todos os componentes que “moldam” uma personalidade borderline. Comecei com o pai ausente, passei pela mãe dominadora e intrusiva. Agora me dedicarei a falar sobre os abusos da infância.

Oras, me parece óbvio que ao reler os dois posts abaixo vocês encontrarão muitos exemplos de abuso na minha infância: as surras do meu pai, o assédio moral da minha mãe etc. Porém, falta frisar que abuso na infância não precisa ser corporal. Aliás, quando reclamei de ter sofrido abusos na infância me perguntaram se eu havia sido violentada sexualmente. Não se trata disso apenas. Que eu me lembre não fui violada. Posso ter apagado isso da memória, muito embora acredite que não fui realmente abusada sexualmente. Mas, uma das coisas que meu pai me dizia com certa frequência era que todas as meninas deveriam ter seus cabaços furados no hospital no mesmo instante em que se furavam suas orelhas para colocar brincos. Quando eu cresci mais um pouco, ele dizia que eu devia aprender a chupar bem um pau porque era disso que os homens gostavam.

Meu tio mais novo, 15 anos mais velho que eu, costumava brincar de apertar meus peitinhos. Também passava a mão na minha bunda. Disso não costumo me lembrar com desgosto, era divertido. Mas minha tia mais nova, 11 anos mais velha do que eu, costumava me torturar fisicamente e uma das coisas que ela achava mais divertida na vida era me colocar com a bunda para cima e enfiar cotonetes no meu cú. Dizia estar procurando por vermes. Seria mais fácil me dar um vermicida, não? Essas são algumas das cenas de que me lembro e vale repetir que eu morava com esses cidadãos (tios, e agregados) durante minha primeira infância. Um dia me peguei a pensar que devo ter passado por muitas outras coisas na fase antes dos 3 anos de idade, da qual não consigo me lembrar…

Saindo do cenário dos abusos físicos, podemos passar para os abusos psicológicos e emocionais. Lembro de ter sido esquecida por mais de 2 horas na escola. A saída era as 18hs e passavam das 20h e eu estava lá, sozinha, com uma servente e um bebê. Lembro de ter olhado para as duas criaturas que me faziam companhia e pensar que deveria me acostumar com o fato de que agora elas eram a minha família. Meus pais foram fazer compras e pediram para alguém me buscar e ninguém se lembrou, afinal, em uma casa com 9 pessoas morando fica fácil um pensar que o outro já fez a tarefa. Além do mais, naqueles tempos, há mais de 30 anos, não havia celulares e eram escassos os aparelhos telefônicos fixos.

Tive um outro episódio que mistura emocional com físico, porque meu pai mexia na eletricidade da casa e eu devia ter uns 4 anos quando ele decidiu que era hora de me ensinar o que era um choque. Pediu ajuda num conserto de um interruptor de energia, me deu 2 fios para segurar, foi até a caixa de força, ligou e desligou a energia elétrica e me deu um baita choque. Aqui a corrente é de 220 volts. Não sei como não desmaiei. Se choques fizessem bem para o cérebro, eu deveria ter me curado naquele momento. Mas provavelmente ali eu fiz o oposto, choquei, paralisei, me senti vulnerável, principalmente traída. Será que é por isso que não consigo confiar nos homens? Isso sem contar as vezes em que ele me prendia e peidava na minha cara. Credo!

É bom poder falar assim, sabe? Sinto um peso saindo da mente. Como se fossem toneladas de carga emocional. Resta agradecer a vocês por compartilhar esse espaço comigo. Thanks!

Senhora Fronteiriça

Essa Lady que vos escreve hoje quer tratar sobre o distúrbio de personalidade borderline.

Dia desses li um artigo e me identifiquei bastante. Mesmo que o diagnóstico importe menos que a terapia, é bom saber o que realmente tenho. Sempre ficaram dúvidas sobre o que eu realmente apresento, se Transtorno Bipolar e/ou Personalidade Borderline.

Eu mesma às vezes ainda fico em dúvida. Mas passo a ter certeza a partir do momento em que leio sobre os chamados “fronteiriços” ou “limítrofes”, as pessoas que andam no limiar entre a sanidade e a loucura. Acontece que tenho todos os ingredientes que misturados, colocados no forno e deixados a assar dão forma a um borderline.

Vou falar dos ingredientes que lembro agora, sem retornar ao artigo:

  1. Pai ausente;
  2. Mãe intrusiva e dominadora;
  3. Abuso na infância;

Vou fazer um post sobre cada um desses ingredientes. E depois falar um pouco mais sobre mim e o que passei e senti. O espaço aqui deve ser para ajudar outras pessoas que se sentem como eu me senti e ainda me sinto, embora esteja a caminho da cura. Como dizem, a partir dos 35 anos os pacientes com esse distúrbio entram em remissão, ou seja, tendem a melhorar. Ora viva! Estou com 35 anos!!! Que maravilha!!!

Hoje falei para meu psicólogo que minha iniciativa no blog e nas pesquisas que venho fazendo são para tentar “desvestir” a personagem da Senhora Fronteiriça. É lógico que sempre corro o risco de utilizar as informações para me justificar: “sou grossa mesmo, sou borderline”; para acusar os familiares: ” vocês são culpados porque eu sou assim! Por isso devem pagar o preço!”; para me comportar de forma displiscente: “foda-se o mundo, eu sou borderline!”… Enfim…

Gostaria de ter outras pessoas com quem conversar por aqui.

Sintam-se à vontade!

Admonições

Admonições são aquelas frases que nós, com transtornos de humor, do afeto e/ou da personalidade, escutamos durante toda nossa infância e adolescência, os menos afortunados escutam por toda a vida adulta ou mesmo até a velhice. São reprimendas e advertências geralmente pronunciadas por nossos pais e avós.

Tenho uma amiga que diz que deveria existir uma habilitação para que as pessoas possam educar seus filhos, como quem tira a carteira de motorista. É que alguns pais não conseguem desempenhar seus papéis, não têm vocação para isso. Transformam as vidas de seus filhos em infernos. Cheias de admonições, assédios, torturas físicas e emocionais. Outra amiga me diz com frequência: mãe é boa, pena que demora a morrer. Infelizmente sabemos que nem depois de mortos os pais param de nos incomodar. São como assombrações! Ficam na lembrança, marcados a ferro e a fogo na camada mais profunda de nossa psique.

Para terminar esse post, seguem as admonições que formaram minha personalidade:

“Deixa de ser imprestável!”
“Agora eu quero ver se você vai conseguir resolver isso!”
“Não seja respondona!”
“Tira a mão daí!”
“Quem não deve, não teme.”
“Deus castiga!”
“Diz-me com quem andas e te direi quem és!”
“O peixe morre pela boca!”
“A curiosidade matou o gato!”
“Pau que nasce torto, morre torto!”
“Mentira tem perna curta!”
“A gente não pode fazer tudo o que quer.”
“Vai chorar lá longe!”
“Tá com o diabo no corpo?”
“Espera só o seu pai chegar…”
“Olha o que você me fez fazer!”
“Não sei de onde saiu esse seu cabelo de bombril!”
“Não me desminta!”
“Seu corpo vai ficar feio, você vai ficar acabada!”
“Tá gordinha, hein?”
“Primeiro a obrigação, depois a diversão!”
“Você está fazendo drama!”
“A verdade dói!”
“O sofrimento vai te fazer bem!”
“Olha que você vai acabar matando sua mãe de desgosto!”
“Eu me sacrifico tanto por sua causa!”

Poderia passar o dia dando mais exemplos. Mas confesso que me lembrando das cenas, fiquei enjoada. Vou ali vomitar e já volto!

Família: uma fábrica de loucos

Nasci em uma grande família, com direito a morar apertada em um apartamento minúsculo com mais 8 retirantes que partiram de sua terra natal para fazer a vida em uma capital que inaugurava.

Fui mimada por bisavô, avó e uma tia, tratada como brinquedo por tios adolescentes, bibelô do papai e rejeitada por uma mãe que só pensava em trabalhar. Depois de sair da matriz da fábrica de fazer loucos, passei a integrar uma filial com a chegada dos irmãos.

O alcoolismo fez parte da minha infância, tanto que aos 5 anos de idade me embriaguei pela primeira vez porque os bêbados da festa em família me pediram para fazer as vezes de garçonete. Resultado: bebia a espuminha da cerveja. Terminei a noite cantando e dançando em volta de um poste e acordei com a primeira ressaca. Por sorte só voltei a beber depois dos 14 anos, moderadamente.

Esse post é uma introdução ao tema que pretendo abordar por aqui durante certo tempo: ambientes bipolarizantes e/ou esquizofrenizantes.  O primeiro desses ambientes e o mais impactante em nossa sociedade é o que costumamos chamar de família.

E segue mais uma admonição: “menina, cala essa boca! Você é sonsa!”

Deixe estar… Que agora a boca não fecha e a sonseira foi substituída por acidez.

 

Na corda-bamba

Estou aqui. Oscilando…
Quero compartilhar minhas emoções flutuantes…

Na hora que criei isso aqui me lembrei de uma admonição que ouvi bastante durante a minha infância. Quando eu fazia algo que desagradava a família, logo me perguntavam:

“Tá doida?”

Em seguida vinha o complemento:

“Doido também apanha!”

Enfim, aqui estou eu, com a diferença de que não apanho mais fisicamente. As surras foram substituídas por assédio moral e atualmente um silêncio mortal. Melhor assim. Deixei de ser caçadora de mim.