Estável é quem já morreu!

Andei muito bem nos últimos meses. Tanto que nem via tanto sentido em alimentar essas páginas. Porque as páginas que escrevo aqui são uma espécie de terapia para mim mesma, mas que acabam dando informações para quem lê e se identifica.

Acontece que tem alguns dias que andei sapateando na lama. Primeiro as insônias novamente. Aquela coisa de ficar tagarelando por dentro na hora em que deito a cabeça no travesseiro. Depois as brigas por causa da falta de paciência com as pessoas. E então uma depressão por causa das brigas. E uma raiva enorme por perder a estabilidade!

Hoje acordei pensando que a instabilidade é a base da vida. Que não tenho que buscar a estabilidade. Só a morte é estável. Viver é instável. E aprendi uma vez num a aula de circo, que na corda bamba quem fica muito firme e rígido, nunca se equilibra. Precisamos então aprender a sermos flexíveis.

Um galho flexível dificilmente quebra com uma ventania. Já os mais duros, acabam se partindo.

A Insônia nossa de cada dia…

Gostaria de ter insônia durante o dia. É que tenho tanta insônia à noite que caio no sono com a maior facilidade no meio da tarde.

Estou aqui, de noite, sem pregar olhos, agoniada e tentando dormir. Não consegui e decidi vir para cá para perguntar a vocês se sofrem do mesmo mal. Sofrem?

Eu deito, tento relaxar, mas o pensamento não para. Daí me lembrei que de tarde, quando os efeitos da noite mal dormida me atacam, nem preciso fechar os olhos. É só cair em uma superfície minimamente confortável.

Sei dormir de dia, sei muito bem! Mas quando a noite chega, parece que desaprendi. Fiquei aqui pensando se isso tem a ver com ser bipolar. Se ser bipolar é ser do contra, talvez tenha mesmo a ver. Porque parece que meu organismo me diz: “não vai dormir agora, não vaiiii, não vaaai! não vai porque não quero! só vou dormir quando eu quiseeerrr! não porque sou obrigado!” Ahhh organismo,  vê se colabora aí!!! Minha terapeuta me ensinou que preciso dormir no escuro para aproveitar os ‘hormônios do crescimento’ para combater os radicais livres.

Deus me livre dos radicais livres!!!!

Litemia 2: Meu Desastre Ecológico

Estou me sentindo uma verdadeira chernobyl humana. É que quando aumentamos a dosagem do lítio eu pensei que tudo ia melhorar ainda mais, porém…

Litemia 2: com o dobro de lítio minha litemia caiu pela metade. No mesmo nível de quem não toma lítio. É que eu inchei. Bastante! E, segundo a psiquiatra, o lítio se diluiu. Resultado: além dos óbvios inchaços e outras complicações físicas, as alterações de humor vieram com tudo.

Briguei com quase todo mundo. Minha irritação chegou ao ápice. Sentia minhas emoções como uma pessoa nua numa tempestade de areia. Qualquer mínimo grão era irritante. Extremamente irritante. Cheguei a doar minha cachorra (mas não levaram embora).

Para arrematar o desastre, minha TSH – o hormônio estimulante da tireóide – está aumentada. Ou seja, quase hipotireoidismo. Só o tempo vai dizer se essa taxa vai voltar ao normal. Nem sei o que dizer. Um pesadelo!

Não quero que fiquem com pena de mim. Fiquei fora do ar porque o inchaço comprometeu minhas mãos. Mas mesmo assim considero que a experiência foi válida. Fui à clínica psiquiátrica e vi outros bipolares em estado bastante doloroso. Um deles descoloriu todos os cabelos do corpo. A mãe dele estava lá, desesperada. Tinha gastado 12 mil reais com um mês de internação… Acabei me conformando com minhas limitações.

Agora nova etapa: de volta à lamotrigina. Quem sabe ela me emagrece?

O louco é que eu fico pensando: a lamotrigina ataca meu fígado – aumenta a Gama GT; o lítio pode acabar com meu rim e atacou minha tireóide; o valproato e seus amigos lesionam o estômago; o trilpetal me deixava muito sonolenta e com a língua dormente… Ou seja, tenho que escolher qual desastre ecológico pessoal poderei suportar. Por enquanto fico com o fígado porque minha Gama GT depois que parei a lamotrigina voltou ao normal, porque dá pra tomar alguma coisa para controlar e porque, na pior das mais horríveis das hipóteses, é mais fácil de transplantar (aiaiai meu catastrofismo!!!!).

Ainda estou um tanto irritada. Ontem eu estava deprimida. Amanhã desejo melhorar.

Vontade de não viver

Voltei a ter vontade de não viver.

Isso é bem diferente de ter vontade de morrer!

Assisti ao aclamado Alice no País das Maravilhas do Tim Burton. Gostaria que existisse uma toca de coelho daquelas, que me levasse para outro lugar. Não gosto desse mundo, não me sinto parte desse mundo. Todavia, sou covarde demais para morrer…

Fico por aqui, tentando achar graça, tentando ver sentido. É duro!

Passou dia das mães, consegui me livrar do fardo da celebração hipócrita familiar, consegui alcançar algumas coisas preciosas para mim, realizar uns tantos sonhos e ainda assim não vejo nada de tão grandioso nesse mundo e nessa vida.

Dia desses recebi uma mensagem ridícula dizendo: ‘você não está deprimido, está distraído’. Era uma daquelas baboseiras em power point cheia de imagens lindas da nossa mãe terra. Eu louvo a existência e reconheço sua grandiosidade, mas daí a me considerar distraída porque não vivo em estado de êxtase por causa da simplicidade do belo é uma grande distância. Talvez os deprimidos não sejam distraídos. Pelo contrário. Raros os distraídos que se deprimem porque não se apegam a imagens sombrias.

Deus me livre de ficar aqui banalizando as coisas, os sentimentos, a vida. Longe de mim! Tenho muitos pequenos momentos de prazer. Normal. Mas se me chamarem para o buraco do coelho, nem pisco, certamente vou! O que mais me incomoda em morrer é pensar no efeito que isso causará nos outros. Se eu pudesse ir embora como quem faz uma viagem, seria excelente!

É isso. Simples assim.

De caso com a Ansiedade

Passei um dia infernal ontem!

Ansiedade pura… Estouraram todas as minhas herpes, fiquei com falta de ar, respirando mal, não conseguia dormir, mas não conseguia fazer nada, não conseguia parar quieta, mas ao mesmo tempo não me concentrava.

Se a depressão é um cafajeste, a ansiedade é uma daquelas amantes estilo ‘atração fatal’. Elas arrombam a porta da sua casa, andam de um lado para o outro, querem atenção o tempo inteiro. Se você começa a ler um bom livro, elas dão escândalo, dizendo que estão sendo deixadas de lado. Só podemos prestar atenção ao que elas querem.

Quando a gente não dá bola, elas pulam em cima, nos enforcam, começam a dar escândalos dentro das nossas cabeças. A sensação é de estar com lombrigas nos pulmões. Um inferno!!! Você fica em estado de hipnose, em suspensão, por essa amante pegajosa, chata, mas de quem não consegue se livrar… Ahhh, se eu acreditasse, diria que é o próprio diabo atentando!

Tomei um ansiolítico, foi o mesmo que nada. Tomei um segundo. Consegui dormir algumas horas. Acordei, andava pra lá e pra cá… Não fiz nada e morri de cansaço. Tive que trabalhar à noite arrastando as tamancas, de tanta estafa. Estafa total! De ansiedade pura.

Oh, maldita! Vê se arranja outro amante e me deixa em paz!!!!

Para que servem os rótulos?

Minha crescente vontade de ler e escrever me prova que eu estava certa: precisava aumentar a dosagem dos meus remédios. Quando se trata de saúde mental os médicos podem ser bastante confusos, aliás, não só os médicos, todos os envolvidos conosco.

Qual a dificuldade em prescrever medicação a uma pessoa que está sentindo de fato os efeitos neuroquímicos de uma desordem psiquiátrica? Como eu já havia feito na postagem anterior, uma simples analogia faz com que possamos perceber o absurdo a que fui submetida nos últimos dias. Nenhum ser em sã consciência vai atender uma pessoa com febre e dizer que ela deve ir para casa e esperar até a semana que vem para ver se precisa realmente de uma medicação. Oras… Mesmo sabendo que febre é um sintoma, antes que a pessoa tenha um colapso, vão receitar um antipirético. Certo? Ok, eu também estava com um sintoma. Um não, vários. E eu deveria passar dias com insônia, irritabilidade, pensamento acelerado e confuso, oscilações de todas as naturezas, para depois fazer um check up e tentar descobrir as causas do meu sofrimento?

Ca%¨&¨$%#lho… Desde 2001 venho tentando descobrir as causas. Não sei o que tenho. Posso até lançar uma enquete, talvez o pessoal que lê esse blog consiga dar um diagnóstico melhor do que os que me atendem ao vivo e em cores. Vejam as opções:

a) tenho transtorno de personalidade borderline

b) tenho transtorno afetivo bipolar

c) tenho transtorno de ansiedade com depressão mista

d) tenho outra coisa que ninguém ainda descobriu

e) tenho todas as anteriores, em comorbidade

f) não tenho nada e apenas estou em busca de um rótulo.

O psicanalista que me atendeu falou que meu grande problema é que eu estou em busca de um rótulo… Minha justificativa para ele foi que a depender do problema o tratamento vai variar, não é mesmo pessoal? Para que servem os rótulos? Justamente para isso, para sabermos do que se trata, para podermos enfrentar a coisa que tem um nome, uma definição, um tratamento adequado, uma medicação a ser prescrita ou nenhuma medicação que faça efeito. Por que é tão importante sabermos os diagnósticos dos males físicos e não é importante sabermos os diagnósticos dos problemas de ordem psicológica ou emocional? É por causa do preconceito ou da pouca experiência dos profissionais da área que ficam com receio de errar?

Enfim… Segue mais um desabafo e a notícia de que estou melhor.

Continuo em busca do rótulo. Mesmo porque não me arriscaria a beber o conteúdo de uma garrafa que viesse sem rótulo à minha mesa. Vocês se arriscariam?

de porta em porta…

Estou aqui novamente, após a crise. Acontece que desde o dia 21 de março tenho pedido ajuda porque não estava mais suportando a instabilidade. E assim dei início a uma romaria… Estou insatisfeita com meu psiquiatra, que muda a dosagem dos meus medicamentos quando estou estável e fica fazendo piadinhas do tipo “vamos largar a mamadeira, bebê?”. Outras vezes se refere aos remédios como bengalas, diz que tenho que largar a bengala. Mas, céus, não posso largar a bengala enquanto meu pé está fraco e posso cair no chão, não é mesmo?

Estava com a dosagem mínima de antidepressivo e ansiolítico. Resultado: surtei, meti o carro numa pilastra, xinguei pessoas próximas, dei uns safanões numas pessoas que amo, fiquei com falta de ar, pânico e obsecada por arrumação em casa. Virei o monstro do pântano! Odeio ficar assim. Passei por um grande stress no dia 21 e por isso tudo de louco veio acontecendo depois. Normal…

Fui a uma terapeuta junguiana amiga da minha mãe. Ela foi de grande ajuda. E concorda comigo que meu psiquiatra está errado. Fui ao meu terapeuta cognitivo comportamental, ele não concorda com a junguiana mas acha que devo mudar sim se não estão funcionando as terapias. A juinguiana disse que não sou borderline. Que estou mais para bipolar. Bem, se for assim, estou com a medicação errada, mas com a terapia certa. Ainda sem saber o que fazer e sentindo um desconforto crescente continuei a jornada.

Tentei marcar uma neuropsiquiatra, mas a mulher é concorrida, não tem agenda antes de maio. Aí minha mãe me levou a um psicanalista. Ele disse que não preciso de rótulos, que meu terapeuta cognitivo comportamental é ruim e meu psiquiatra está certo! Imaginam como saí do consultório do cara? Tão confusa e mal que acabei indo direto para a emergência psiquiátrica de uma clínica.

Fui prontamente atendida por uma jovem médica que mal dava para acreditar que fosse mesmo uma psiquiatra verdadeira. Será que eu estava alucinando? Só sei de uma coisa: a doutora foi ótima! Contei a ela minha romaria, que eu estava de porta em porta pedindo socorro e que eu me sentia como se estivesse com a perna quebrada e as pessoas me dizendo para não me preocupar porque não precisava engessar ou tomar um anti-inflamatório porque eu devia me esforçar e parar de sentir dor. Quanto abandono… Ela me ouviu. Disse que era difícil mesmo fechar um diagnóstico. Mas aumentou as doses do meu antidepressivo e do ansiolítico. Estou me sentindo tão melhor que voltei a escrever aqui, vejam só!

De porta em porta fui diagnosticada com várias coisas diferentes, negligenciada, fiquei mais confusa e precisei parar na emergência. A médica disse que a minha cidade é a segunda pior em atendimento psiquiátrico no país, tendo em conta apenas as capitais. Senti isso na pele!

Abusos na infância

Eu havia prometido falar sobre todos os componentes que “moldam” uma personalidade borderline. Comecei com o pai ausente, passei pela mãe dominadora e intrusiva. Agora me dedicarei a falar sobre os abusos da infância.

Oras, me parece óbvio que ao reler os dois posts abaixo vocês encontrarão muitos exemplos de abuso na minha infância: as surras do meu pai, o assédio moral da minha mãe etc. Porém, falta frisar que abuso na infância não precisa ser corporal. Aliás, quando reclamei de ter sofrido abusos na infância me perguntaram se eu havia sido violentada sexualmente. Não se trata disso apenas. Que eu me lembre não fui violada. Posso ter apagado isso da memória, muito embora acredite que não fui realmente abusada sexualmente. Mas, uma das coisas que meu pai me dizia com certa frequência era que todas as meninas deveriam ter seus cabaços furados no hospital no mesmo instante em que se furavam suas orelhas para colocar brincos. Quando eu cresci mais um pouco, ele dizia que eu devia aprender a chupar bem um pau porque era disso que os homens gostavam.

Meu tio mais novo, 15 anos mais velho que eu, costumava brincar de apertar meus peitinhos. Também passava a mão na minha bunda. Disso não costumo me lembrar com desgosto, era divertido. Mas minha tia mais nova, 11 anos mais velha do que eu, costumava me torturar fisicamente e uma das coisas que ela achava mais divertida na vida era me colocar com a bunda para cima e enfiar cotonetes no meu cú. Dizia estar procurando por vermes. Seria mais fácil me dar um vermicida, não? Essas são algumas das cenas de que me lembro e vale repetir que eu morava com esses cidadãos (tios, e agregados) durante minha primeira infância. Um dia me peguei a pensar que devo ter passado por muitas outras coisas na fase antes dos 3 anos de idade, da qual não consigo me lembrar…

Saindo do cenário dos abusos físicos, podemos passar para os abusos psicológicos e emocionais. Lembro de ter sido esquecida por mais de 2 horas na escola. A saída era as 18hs e passavam das 20h e eu estava lá, sozinha, com uma servente e um bebê. Lembro de ter olhado para as duas criaturas que me faziam companhia e pensar que deveria me acostumar com o fato de que agora elas eram a minha família. Meus pais foram fazer compras e pediram para alguém me buscar e ninguém se lembrou, afinal, em uma casa com 9 pessoas morando fica fácil um pensar que o outro já fez a tarefa. Além do mais, naqueles tempos, há mais de 30 anos, não havia celulares e eram escassos os aparelhos telefônicos fixos.

Tive um outro episódio que mistura emocional com físico, porque meu pai mexia na eletricidade da casa e eu devia ter uns 4 anos quando ele decidiu que era hora de me ensinar o que era um choque. Pediu ajuda num conserto de um interruptor de energia, me deu 2 fios para segurar, foi até a caixa de força, ligou e desligou a energia elétrica e me deu um baita choque. Aqui a corrente é de 220 volts. Não sei como não desmaiei. Se choques fizessem bem para o cérebro, eu deveria ter me curado naquele momento. Mas provavelmente ali eu fiz o oposto, choquei, paralisei, me senti vulnerável, principalmente traída. Será que é por isso que não consigo confiar nos homens? Isso sem contar as vezes em que ele me prendia e peidava na minha cara. Credo!

É bom poder falar assim, sabe? Sinto um peso saindo da mente. Como se fossem toneladas de carga emocional. Resta agradecer a vocês por compartilhar esse espaço comigo. Thanks!

Dona Monstra

Apelidei carinhosamente aquela que me deu à luz de Dona Monstra. Sabe, demorei mais de mês para entrar com este post porque só de pensar nela eu suava frio. Recentemente adquiri certos sintomas de síndrome do pânico por causa da minha mamãe monstro.

Tenho um amigo que diz que eu deveria reconhecer e agradecer a ela todas as lições, porque sem tudo o que ela me proporcionou eu não seria eu. Mas pensando bem, talvez eu preferisse não ser eu a ter passado por tudo o que ela me fez passar. Costumo dizer que ela me fez comer o pão que o diabo amassou com o rabo. Mas até isso é eufemismo.

Um dia desses procurei uma foto que ilustraria bem esse post, era minha mãe me segurando num brinquedo para que eu tirasse foto e eu gritando porque não queria tirar a foto e não queria estar no tal brinquedo. A imagem dizia tudo. Mas acho que eu rasguei essa foto em algum momento da minha vida e nem me lembro quando foi isso. Esse post não vai ficar tão bem escrito quanto os outros, já estou começando a suar e a pensar com dificuldade…

Uma amiga que sofre intensamente com a Síndrome do Pânico explicou que uma psiquiatra disse a ela que essa síndrome está intimamente associada à nossa mãe. Em algum momento de nossa infância ela nos fez algo que desencadeou um sentimento de morte iminente e todas as vezes que nos encontramos em uma situação de stress aquela memória antiga retorna. Não sei se isso é verdade, mas no meu caso, é quando me refiro àquela que me trouxe ao mundo que os calafrios, tremedeiras e faltas de ar tomam meu ser.

Ai que post chato! Está chato de escrever, tomara que não esteja chato de ler…

Minha mãe foi bancária, abandonou sonhos e talentos para seguir de modo medíocre o destino dos ordinários. Isso não teria nenhum problema se ela não culpasse os filhos por suas frustrações. Ela desejava ser artista, ou uma grande cientista e acabou aposentada do banco do brasil, com uma boa quantia mensal para finalmente poder desfrutar a vida. Acontece que nessa hora em que ela poderia rebolar pelo mundo, teve um câncer, duas hérnias de disco, água no joelho, hipertensão e artrite. É a sina de uma maioria, estragar seus anos de saúde se dedicando a construir sabe-deus-o-quê (nunca entendi qual a grande importância de um bancário, a não ser quando preciso dos serviços deles, mas para a humanidade em geral, que benefício trazem?), para depois colher os frutos. Só que os frutos podem estar podres, cheios de bicho etc.

Eu nunca me dei bem com a minha mamãe monstro porque escolhi comer os frutos ainda verdes. Tentei seguir os passos dela. Não durei um ano no banco. Fugi com 16 anos para bem longe. Vivi bem durante aquele tempo. Até que a formatura iminente me fez temer voltar para a barra da saia dela. Não adiantou fugir, acabei na barra da saia dela e levando uns chutes, mas como diz uma amiga até quem nos chuta nos joga para cima.

Ela nunca reconheceu meu valor. Até hoje me pergunta quando vou crescer. Quando vou virar gente, quando vou trabalhar, quando vou construir meu futuro, quando vou… lálálá. É difícil para mim. Mas agora estou me libertando devagar. Já não espero que ela me ame. Como diz meu terapeuta, o que eu vou fazer com o amor dela a essa altura da vida? Não espero mais que ela reconheça meu valor. Novamente meu terapeuta me diz: se ela nunca reconheceu até hoje não vai reconhecer nunca. Eu nunca serei suficiente para ela. Mesmo que eu tenha câncer, duas hérnias de disco, água no joelho, hipertensão ou artrite. Sabe por quê? Porque ela vai dizer que não vale! Eu não trabalhei o suficiente para merecer essas doenças.

Apenas para constar:

  • Eu trabalho ininterruptamente desde os 14 anos;
  • Eu não tenho câncer;
  • Eu não tenho problemas na coluna;
  • Eu não tenho água no joelho;
  • Minha pressão é 11 por 7 há anos;
  • Não tenho problemas nas articulações;
  • Pretendo permanecer saudável;
  • Pretendo continuar trabalhando;
  • Se eu me aposentar será porque não dá mais, pois adoro trabalhar.

É que eu trabalho com arte. E artistas não se aposentam. Seria como se aposentar de mim mesma. Entendem? Eu entendo. Dona Monstra não consegue entender.