Ambientes bipolarizantes

Você acorda com gritos. Admonições. Seus pais bebem, brigam. Você apanha.

Um dia some um par de brincos de brilhantes e você e um de seus irmãos passam por uma sessão de investigação parecida com aquelas das séries CSI. Você tem cerca de 7 anos de idade. Convencem você de que os brincos devem ter sido jogados no meio de suas coisas. Ameaçam te levar à polícia. Dizem que vão te colocar num polígrafo (muito embora você ainda não tenha idéia do que seja isso, mas depois explicam que é um detector de mentiras). Você confessa, depois de horas de stress que deve mesmo ter brincado com os brincos e não se lembra onde foram parar… Chamam um encanador para desmontar o vaso sanitário, a pia e o bidê (naqueles tempos todos os banheiros tinham bidê). Você apanha porque não encontram os brincos. Você é profundamente infeliz!

Meses depois encontram os brincos na bolsa da empregada.

Você cresce com a sensação de que nunca vão acreditar no que você fala. Nem você mesma.

Um dia você acorda, com carinhos e beijos. Seus pais levam você para brincar com os cisnes do laguinho na praça dos três poderes (tempos antigos e bons aqueles…). Você sente o sol, o frescor do vento, come pipoca, joga pipoca no laguinho. Você é feliz, quase exultante! Te beijam, abraçam, elogiam. Tiram fotos.

As partes maníacas da infância bipolarizante costumam ser regiamente registradas em fotos e vídeos. Um ambiente feliz, perfeito, propaganda de margarina.

As partes depressivas da infância bipolarizante costumam ser regiamente registradas em sua mente, pele, emoções. Você cresce com o emocional em carne viva. Sempre aguardando a hora em que os momentos maravilhosos vão se transformar em um trecho de filme de terror. Sexta-feira 13 parte 1, parte 2, parte 3, …, parte 25, parte 26…, parte 82, etc. Mereciam fotos e vídeos. Mas infelizmente, para você, nunca são registrados concretamente. E quando você cita aquilo, dizem que você inventou, afinal, você é doida! E nunca se esqueça: “doido também apanha!”

Dizem que os transtornos afetivos e de humor são genéticos. Não se tem muita certeza disso. Mas uma coisa é certa: um ambiente bipolarizante pode psicotizar qualquer ser humano. Experimente fazer isso com um animal de estimação. Alterne momentos de extremo afeto e elogios com surras, xingamentos e gritos. Talvez você acabe com um animalzinho bipolar.

Depois de adulto, você precisará de ajuda. Se Jesus não te salvar, só a terapia cognitivo-comportamental salva! E a farmacologia, claro. Viva a farmacologia – já dizia o Tom Zé!