Abusos na infância

Eu havia prometido falar sobre todos os componentes que “moldam” uma personalidade borderline. Comecei com o pai ausente, passei pela mãe dominadora e intrusiva. Agora me dedicarei a falar sobre os abusos da infância.

Oras, me parece óbvio que ao reler os dois posts abaixo vocês encontrarão muitos exemplos de abuso na minha infância: as surras do meu pai, o assédio moral da minha mãe etc. Porém, falta frisar que abuso na infância não precisa ser corporal. Aliás, quando reclamei de ter sofrido abusos na infância me perguntaram se eu havia sido violentada sexualmente. Não se trata disso apenas. Que eu me lembre não fui violada. Posso ter apagado isso da memória, muito embora acredite que não fui realmente abusada sexualmente. Mas, uma das coisas que meu pai me dizia com certa frequência era que todas as meninas deveriam ter seus cabaços furados no hospital no mesmo instante em que se furavam suas orelhas para colocar brincos. Quando eu cresci mais um pouco, ele dizia que eu devia aprender a chupar bem um pau porque era disso que os homens gostavam.

Meu tio mais novo, 15 anos mais velho que eu, costumava brincar de apertar meus peitinhos. Também passava a mão na minha bunda. Disso não costumo me lembrar com desgosto, era divertido. Mas minha tia mais nova, 11 anos mais velha do que eu, costumava me torturar fisicamente e uma das coisas que ela achava mais divertida na vida era me colocar com a bunda para cima e enfiar cotonetes no meu cú. Dizia estar procurando por vermes. Seria mais fácil me dar um vermicida, não? Essas são algumas das cenas de que me lembro e vale repetir que eu morava com esses cidadãos (tios, e agregados) durante minha primeira infância. Um dia me peguei a pensar que devo ter passado por muitas outras coisas na fase antes dos 3 anos de idade, da qual não consigo me lembrar…

Saindo do cenário dos abusos físicos, podemos passar para os abusos psicológicos e emocionais. Lembro de ter sido esquecida por mais de 2 horas na escola. A saída era as 18hs e passavam das 20h e eu estava lá, sozinha, com uma servente e um bebê. Lembro de ter olhado para as duas criaturas que me faziam companhia e pensar que deveria me acostumar com o fato de que agora elas eram a minha família. Meus pais foram fazer compras e pediram para alguém me buscar e ninguém se lembrou, afinal, em uma casa com 9 pessoas morando fica fácil um pensar que o outro já fez a tarefa. Além do mais, naqueles tempos, há mais de 30 anos, não havia celulares e eram escassos os aparelhos telefônicos fixos.

Tive um outro episódio que mistura emocional com físico, porque meu pai mexia na eletricidade da casa e eu devia ter uns 4 anos quando ele decidiu que era hora de me ensinar o que era um choque. Pediu ajuda num conserto de um interruptor de energia, me deu 2 fios para segurar, foi até a caixa de força, ligou e desligou a energia elétrica e me deu um baita choque. Aqui a corrente é de 220 volts. Não sei como não desmaiei. Se choques fizessem bem para o cérebro, eu deveria ter me curado naquele momento. Mas provavelmente ali eu fiz o oposto, choquei, paralisei, me senti vulnerável, principalmente traída. Será que é por isso que não consigo confiar nos homens? Isso sem contar as vezes em que ele me prendia e peidava na minha cara. Credo!

É bom poder falar assim, sabe? Sinto um peso saindo da mente. Como se fossem toneladas de carga emocional. Resta agradecer a vocês por compartilhar esse espaço comigo. Thanks!