Dona Monstra

Apelidei carinhosamente aquela que me deu à luz de Dona Monstra. Sabe, demorei mais de mês para entrar com este post porque só de pensar nela eu suava frio. Recentemente adquiri certos sintomas de síndrome do pânico por causa da minha mamãe monstro.

Tenho um amigo que diz que eu deveria reconhecer e agradecer a ela todas as lições, porque sem tudo o que ela me proporcionou eu não seria eu. Mas pensando bem, talvez eu preferisse não ser eu a ter passado por tudo o que ela me fez passar. Costumo dizer que ela me fez comer o pão que o diabo amassou com o rabo. Mas até isso é eufemismo.

Um dia desses procurei uma foto que ilustraria bem esse post, era minha mãe me segurando num brinquedo para que eu tirasse foto e eu gritando porque não queria tirar a foto e não queria estar no tal brinquedo. A imagem dizia tudo. Mas acho que eu rasguei essa foto em algum momento da minha vida e nem me lembro quando foi isso. Esse post não vai ficar tão bem escrito quanto os outros, já estou começando a suar e a pensar com dificuldade…

Uma amiga que sofre intensamente com a Síndrome do Pânico explicou que uma psiquiatra disse a ela que essa síndrome está intimamente associada à nossa mãe. Em algum momento de nossa infância ela nos fez algo que desencadeou um sentimento de morte iminente e todas as vezes que nos encontramos em uma situação de stress aquela memória antiga retorna. Não sei se isso é verdade, mas no meu caso, é quando me refiro àquela que me trouxe ao mundo que os calafrios, tremedeiras e faltas de ar tomam meu ser.

Ai que post chato! Está chato de escrever, tomara que não esteja chato de ler…

Minha mãe foi bancária, abandonou sonhos e talentos para seguir de modo medíocre o destino dos ordinários. Isso não teria nenhum problema se ela não culpasse os filhos por suas frustrações. Ela desejava ser artista, ou uma grande cientista e acabou aposentada do banco do brasil, com uma boa quantia mensal para finalmente poder desfrutar a vida. Acontece que nessa hora em que ela poderia rebolar pelo mundo, teve um câncer, duas hérnias de disco, água no joelho, hipertensão e artrite. É a sina de uma maioria, estragar seus anos de saúde se dedicando a construir sabe-deus-o-quê (nunca entendi qual a grande importância de um bancário, a não ser quando preciso dos serviços deles, mas para a humanidade em geral, que benefício trazem?), para depois colher os frutos. Só que os frutos podem estar podres, cheios de bicho etc.

Eu nunca me dei bem com a minha mamãe monstro porque escolhi comer os frutos ainda verdes. Tentei seguir os passos dela. Não durei um ano no banco. Fugi com 16 anos para bem longe. Vivi bem durante aquele tempo. Até que a formatura iminente me fez temer voltar para a barra da saia dela. Não adiantou fugir, acabei na barra da saia dela e levando uns chutes, mas como diz uma amiga até quem nos chuta nos joga para cima.

Ela nunca reconheceu meu valor. Até hoje me pergunta quando vou crescer. Quando vou virar gente, quando vou trabalhar, quando vou construir meu futuro, quando vou… lálálá. É difícil para mim. Mas agora estou me libertando devagar. Já não espero que ela me ame. Como diz meu terapeuta, o que eu vou fazer com o amor dela a essa altura da vida? Não espero mais que ela reconheça meu valor. Novamente meu terapeuta me diz: se ela nunca reconheceu até hoje não vai reconhecer nunca. Eu nunca serei suficiente para ela. Mesmo que eu tenha câncer, duas hérnias de disco, água no joelho, hipertensão ou artrite. Sabe por quê? Porque ela vai dizer que não vale! Eu não trabalhei o suficiente para merecer essas doenças.

Apenas para constar:

  • Eu trabalho ininterruptamente desde os 14 anos;
  • Eu não tenho câncer;
  • Eu não tenho problemas na coluna;
  • Eu não tenho água no joelho;
  • Minha pressão é 11 por 7 há anos;
  • Não tenho problemas nas articulações;
  • Pretendo permanecer saudável;
  • Pretendo continuar trabalhando;
  • Se eu me aposentar será porque não dá mais, pois adoro trabalhar.

É que eu trabalho com arte. E artistas não se aposentam. Seria como se aposentar de mim mesma. Entendem? Eu entendo. Dona Monstra não consegue entender.

8 comentários em “Dona Monstra”

  1. TEMOS MUITO EM COMUM,ME VI EM MUITAS DE SUAS PALAVRA SEU MESMA.NOSSA TENHO HISTÓRIAS DE ABUSO,DE TODAS AS FORMAS Q VC POSSA IMAGINAR,SE MINHA MÃE NÃO CAUSOU ALGUM CONTRIBUIU PARA Q ISSO ACONTECESSE.HJ SUPEREI EM PARTE MAIS TM COISAS SÃO TÃO INCUTIDAS EM MIM Q NEM COM UMA CIRURGIA SAIRIA AQ DE DENTRO,COMO ESSA SENSAÇÃO DE MAL ESTAR QUANDO TOCO NO ASSUNTO.UM DIA QUEM SABE A GENTE SE FALA E TROCA INFORMAÇÕES DE COMO LIDAMOS COM ISSO E COMO AJUDAR A OUTRA. TE FALO Q É SÓ PARA HONRA E GLORIA DO SENHOR Q ESTOU AQ HJ.BEIJO.

    1. ô, querida…
      adorei suas palavras.
      Realmente esse blog é para dar espaço para a cura.
      Certamente podemos nos encontrar e trocar informações sobre experiências…
      Você tem blog?

  2. Realmente, a relação com as mamães é sempre bem problemática no nosso caso. Eu consegui me libertar da minha, estou no meio caminho para conseguir perdoá-la (acho indispensável para mim), mas ainda não consigo sentir o amor que gostaria. A situação é complicada para mim no momento, pois ela está doente e senil e coube a mim cuidar dela.
    Não sei no que vc acredita e não quero impor nada, mas realmente acredito que há um aprendizado em todas as coisas.

    1. Boa sorte, Samara!
      Deus que me perdoe, mas eu não sei se teria condição de cuidar da dona monstra em processo de senilidade… Você de fato está muito bem, viu!
      Eu acredito no aprendizado, mas no caso da minha mãe por enquanto está sendo mais saudável uma certa distância, tipo uma margem de segurança.
      Ah, esqueci de comentar no seu comentário primeiro, eu também morria de medo de ser internada e ficar louca de vez!

  3. Sim é impressionante como as mães podem destruir a vida dos filhos, às vezes com uma só palavra ou gesto. Mães que dizem que se sacrificam, então…..Tudo pelos filhos, vida, trabalho, mas no fundo são só mentiras desculpam-se a si próprias pra viver na mediocridade.
    Parabéns por ter se libertado da sua mãe .

    1. Obrigada, Marilena!
      É bom saber que existem mais pessoas no mundo que conseguem enxergar essas coisas. Muitos são controlados pelo medo de pensar mal dos pais.
      Como diz minha terapeuta: nem na bíblia está escrito que devemos amar nossos pais. Lá está escrito que devemos respeitá-los. Estou ainda com dificuldade, mas aos poucos vou conseguindo melhorar o respeito por eles… Enfim…

  4. Só esse ano descobri ter borderline…Estou na quarta psicóloga e terceiro psiquiatra, tenho 24 anos.

    Minha mãe…
    Acredito que minha mãe foi muito sofrida, nasceu no nordeste…passou muita fome, dormia e acordava com fome, cuidava criança dos irmãos, morava em casa de pau a pique. A minha vó, mãe dela estava aqui em São Paulo. Enquanto ela ficava cuidando dos irmãos ainda criança. Aos 16 anos veio para São Paulo pois minha vó foi buscá-los.

    Casou-se com meu pai que também veio do nordeste primo dela de 2º grau
    que só sabia ter ciúmes doente e bater nela. Já no namoro agredia ela.

    Apesar da minha mãe trabalhar fora, talvez não ter tido tanto tempo de dar carinho e antenção maior. Foi uma pessoa honesta exemplar.
    Não espancava os filhos, sempre mostrou extrema honestidade, dedicação.

    Pela criação dela talvez a fez não ser tão doce e meiga mas temos que ser na vida perdoadores e amar as pessoas.

    Estou falando da minha situação…cada um tem um trauma, grave ou leve.

    Mas minha mãe eu amo muito pois apesar de tanto sofrimento, muitas e muitas vezes não ter acreditado em mim, ter-mos brigado, ela muitas vezes se portar como adolescente…ela é minha mãe…ela é sensível, ela tem dores ela precisa de mim, ela é humana, mulher igual a mim…ela chora também…

    1. Olá Priscila! Seja bem vinda ao blog.
      É bom ter pessoas aqui com quem desabafar. Eu me sinto ótima percebendo que podemos falar sobre esses assuntos sem nenhum incômodo. Minha mãe também é nordestina e eu tenho conseguido perceber atualmente que muitas das coisas que ela fez de errado tem a ver com a infância difícil que ela enfrentou. Eu tenho buscado perdoá-la e estou no caminho de volta ao amor, porque antes de tomar consciência das coisas eu a amava sim. A dona monstra também é humana e sensível e provavelmente a tosqueira que ela apresenta seja uma máscara para encobrir suas fragilidades. Ainda estou em meu processo de autdescoberta e descoberta desses vínculos. A terapia ajuda muito!

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